o barbeiro da vila

2006/03/31

Encontros e Desencontros destilados

É estranho quando, após um desencontro, o reencontro se assume completamente divergente daquilo que se imaginou e se destilou ao longo do tempo. Como um vinho que tarda a envelhecer ou vinagre que nunca chegou a vinho, os reencontros são estranhos, imprevisíveis, irritantemente falíveis. Nunca são como o imaginado, aliás, o vinagre saí quase sempre doce e o vinho com travo de azedo, apanha-nos indefesos nunca sabemos como reagir. Assim, invariavelmente, pensamos no tempo que passámos a imaginar como seria o reencontro e quão escusado é pensar nisso porque, afinal, só podemos provar o vinho quando abrirmos os pipos. É assim a arte dos desencontros, o resto são lamechices que só cabem em postais de ocasião numa loja de souvenirs, é para a frente que se tem que ir. Também o cabelo é assim, nunca é o mesmo. Com o tempo, o cabelo, vai ficando ou mais ralo ou mais rijo e seco e o branco instala-se sempre sem convite de ninguém.

2005/11/29

A Invernia

É quando chega a invernia que o barbeiro se recorda o quanto ama a sua Maria. De uma invernia imposta pela sua amada de cabelos dourados em cachos, o barbeiro, encontrou novamente a primavera na ave migradora que é a sua Maria. Já desesperava pois, apesar de ser já altura, as andorinhas tardavam esse ano. Desde então, sempre se recorda de uma invernia que já passou e que foi acalentada pela primavera da sua Maria. Por vezes, os pássaros da primavera, lembram-lhe essa invernia já recuada e quando a invernia se encontra presente a Primavera está sempre presente na sua Maria com a lancheira para o almoço.

2005/10/23

O Campo

No tempo em que a primavera corria em torrentes de sangue nas veias do Barbeiro, o tempo e a exaltação da natureza eram pródigas em estações. Foi num desses campos que o Barbeiro sulcou com o seu arado viril o corpo fértil de sua amada. Agora, o Verão já passou e o seu filho maduro lembra que o Outono chegou.

2005/09/11

Uma pausa para a alienação colectiva

Semana em cheio para a aleanação colectiva na barbearia. Do futebol brotou um tema para conversa acesa durante a próxima semana, não faz mal o Barbeiro só se interessa pelo clube local. O clube local é que o faz perder a compustura capilar ocasionalmente num momento em que a laca seja traída pelo vento que traz a invernia que se aproxima. Quanto aos outros, esses, eles é que o ganham e que bem faria uma tesoura bem afiada nesses gadelhudos.

2005/07/30

É verão

É durante o verão que ele se encontra na languidão dos minutos que passam e que se reflectem sobre ele. Nunca gostou do calor, e o verão, esse, traz-lhe um abraço quente que este nunca pediu. Na portada da barbearia ali fica enraizado ao tempo que já passou e aquilo que parece não correr, o tempo está estático e o Barbeiro deixa-se enfeitiçar pelo Pôr do Sol cor de laranja, é assim o verão para o Barbeiro.

2005/07/05

Vacances

O calor aperta e os ares do mar sussuram aos ouvidos dos desgraçados que, para trabalharem, têm que estar debaixo do impunente Sol. O Barbeiro entra agora na época do ano em que mais substancial lhe parece o ofício. O calor trás a necessidade de eliminação de excessos capilares e com isso, o Barbeiro, tem a oportunidade de afagar com mais intensidade o cabelo que com tanto zelo desbasta. Contudo, a sua Melinda, também ela seduzida pelo murmurar do mar, pressiona o velho barbeiro para a praia. É altura para ir para a jamba das baleias e acostar ao mar, olhando-o sem dar conta do tempo que, para eles, passa mais depressa parece. O Barbeiro e a sua Melinda vão encalhar na praia durante algum tempo e ali aguardar, ouvindo o sussuro do mar, aquilo que é imortal e finito, o tempo deles.

2005/06/16

Prepotência

Alguém disse ao barbeiro que este é prepotente e o barbeiro respondeu:

" A minha prepotência é típica de um objecto inanimado que caí vertiginosamente e nada pode fazer contra a lei da gravidade, é uma lei natural das cousas."